Saúde

Psicodélicos e saúde mental: adultos autistas relatam melhora duradoura em ansiedade e depressão
Estudo internacional revela alto interesse, uso frequente e relatos de benefícios prolongados, mas especialistas alertam para barreiras legais e falta de pesquisas inclusivas
Por Laercio Damasceno - 18/01/2026


Domínio público


Um amplo levantamento internacional com adultos autistas revela um dado que chama a atenção da comunidade científica: quase 70% dos participantes relataram melhora em problemas de saúde mental após o uso de psicodélicos, como psilocibina (cogumelos), LSD e MDMA. Os resultados reforçam o debate sobre a necessidade de pesquisas mais inclusivas e políticas públicas que considerem essa população historicamente excluída de ensaios clínicos.

Publicado em dezembro de 2025 na revista PLOS Mental Health, o estudo ouviu 261 adultos autistas, majoritariamente do Canadá e dos Estados Unidos, e analisou conhecimentos, percepções e experiências reais com psicodélicos no contexto da saúde mental.

Interesse elevado e experiências frequentes

De acordo com os dados, 77,8% dos participantes afirmaram que estariam dispostos a usar psicodélicos no futuro como alternativa terapêutica. Além disso, 69,7% relataram já ter usado essas substâncias ao menos uma vez, sendo a psilocibina a mais comum, presente em 91,7% dos relatos de uso.

A maioria dos entrevistados convive com condições associadas, como ansiedade (85,1%), transtornos do humor, incluindo depressão (67%), e transtorno de estresse pós-traumático – PTSD (44,4%). Para muitos, os tratamentos convencionais não oferecem alívio suficiente.

“Pessoas autistas frequentemente enfrentam resistência aos tratamentos tradicionais e efeitos colaterais mais intensos, além de serem sistematicamente excluídas de estudos clínicos”, explica a pesquisadora Hsiang-Yuan Lin, autora sênior do trabalho.


Ansiedade, depressão e efeitos que duram meses — ou anos

Entre os participantes que relataram melhora após o uso de psicodélicos, 76,9% observaram redução dos sintomas de ansiedade e 56,5% relataram melhora em transtornos do humor. No caso do PTSD, o índice chegou a 40,1%.

Os efeitos, segundo os relatos, não foram apenas imediatos. Mais de 32% afirmaram que os benefícios duraram quatro meses ou mais, e cerca de 17% relataram melhorias persistentes por mais de dois anos.

Outro dado relevante é a intensidade da experiência: mais de 90% classificaram o uso como moderadamente ou altamente significativo, tanto do ponto de vista psicológico quanto emocional.

“Experiências consideradas mais significativas e com doses moderadas estiveram associadas a melhorias mais duradouras”, afirma Sahba Afsharnia, autora principal do estudo.

Barreiras legais e riscos ainda preocupam

Apesar do interesse elevado, o estudo aponta obstáculos importantes. Questões legais foram citadas por 23,3% dos participantes, seguidas por preocupações com riscos à saúde (18,3%) e dificuldades logísticas, como transporte e trabalho (28%).

Mesmo assim, 72,7% disseram que participariam de um ensaio clínico governamental, caso tivessem a oportunidade — um sinal claro da demanda reprimida por pesquisas formais e seguras.

Os autores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela, já que o estudo se baseia em autorrelatos e em uma amostra voluntária, possivelmente mais favorável ao tema. Ainda assim, o trabalho é considerado um marco por dar voz direta à comunidade autista.

“Esses achados reforçam a urgência de estudos clínicos inclusivos, que considerem as necessidades específicas de adultos autistas”, conclui Lin.

Enquanto o debate sobre a regulamentação dos psicodélicos avança em diferentes países, o estudo lança luz sobre uma realidade pouco explorada: para muitos adultos autistas, essas substâncias já fazem parte de estratégias informais de cuidado em saúde mental — à frente da ciência e da legislação.


Referência
Afsharnia S, Liang V, Lunsky Y, Orsini AP, Tint A, Lin HY (2025) Conhecimento, percepções e uso de psicodélicos para saúde mental entre adultos autistas: uma pesquisa online. PLOS Ment Health 2(12): e0000514. https://doi.org/10.1371/journal.pmen.0000514

 

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